A Garota do Diário: Tendência dinheiro de plástico



Certamente vocês já ouviram falar de mim, sou Lisa Taylor, a garota do diário. Quando me convidaram para expor minhas vivências nesse espaço eu fiquei confusa, cheguei a parar para pensar durante longos quatro segundos e meio, mas aceitei. Tudo bem que eu não sou o tipo de ser humano exemplo, mas tenho muitas histórias para serem contadas, digo, dilemas. O tema de estreia não poderia ser mais sugestivo e aterrorizante para mim. É difícil jogar as cartas na mesa e me abrir para todos assim. Mas eu já respirei fundo, fundo mesmo, tenho oxigênio de sobra para continuar sentada em frente ao meu computador cor-de-rosa. Força, Lisa! … Então tá, vamos nessa!


Que querido diário, nada! É diário, apenas diário...

Sabe quando passamos em frente uma loja, seja ela de que segmento for, e vemos aquelas vitrines reluzentes brilhando como constelações de estrelas, que consequentemente nos fazem tomar decisões indesejáveis como, por exemplo, ignorar o limite do cartão de crédito e comprar até o saldo se esgotar? Se você não é um consumista compulsivo ou se é do tipo econômico ao extremo, sugiro que pare de ler este artigo agora mesmo, mas se for do tipo econômico curioso e por forças maiores quiser continuar lendo, fique a vontade.

Como dizia, a sensação de comprar é única. Tudo bem que ela acaba em 30 segundos, após a máquina de cartões de créditos aprovar a aquisição, mas mesmo assim, é algo inexplicável. Defino como mistura de tudo de mais maravilhoso que possa existir nesse planetinha. Se está triste, compre e seu sorriso, por mais feio que for, dará um jeitinho de aparecer. Se está confusa ou apenas entediada, compre. Isso sempre funciona comigo!

Alguns dizem que sou louca, que preciso buscar ajuda. Mas a verdade é que esse tipo de pessoa, que por vez critica e vive atirando pedras em nós consumistas, não sabe o que é realmente sentir o sabor do poder, do luxo e, é claro, da sedução que exala pelo ar.

Eu nunca precisei de muita coisa para ser feliz, nunca mesmo. Meus pais sempre escolhiam roupas feias e baratas. Sabe por que? Porque os produtos feios e baratos duram uma eternidade, enquanto os caros e brilhantes duram apenas três ou quatro semanas. Hoje, depois de bem crescidinha, defino minha alegria em apenas três palavras: Cartão de Crédito. Para alguns o vulgo dinheiro de plástico.

Muita gente diz que é desnecessário, que o ser humano deve aprender a comprar somente aquilo que realmente o seu orçamento mensal pode suportar, mas se formos analisar por este lado, meus queridos, andaríamos pelados. Porque, cai entre nós, para que se preocupar com o agora, sendo que a fatura só chegará no final do mês, não é mesmo? Smile.

Eu sou do tipo que compro sem me arrepender... até eu sair da loja, mas isso é apenas um mero detalhe. Eu não tenho muitos amigos, na verdade não tenho ninguém. Meus pais moram no interior e eu exerço minha profissão na cidade grande, e bota grande nisso. Durante um tempo eu procurei uma associação que concede apoio a compradores compulsivos. Antes que fiquem pensando mil e uma coisa, eu sou uma compradora compulsiva. Não é fácil se render aos encantos dos manequins, eles são meus melhores amigos. Além de tudo são educados, não dizem nada, mas em compensação possuem tudo que preciso, tudo ali envolto em seus corpos pálidos. É só apanhar com as duas mãos, colocar em uma sacola estampada, pagar e ter as energias renovadas. Mas ninguém, absolutamente ninguém me entende, nem os conselheiros da associação.

De que me adiantaria trabalhar, economizar todo meu dinheiro em um banco para em um qualquer dia fatídico ser atropelada por um caminhão de mudanças, morrer e deixar todos meus cifrões para alguém que eu nem conheço? Isso é realmente justo? Não, não é!

A tendência do dinheiro de plástico é única, é algo mágico. Com ele eu posso tudo, eu sou linda, charmosa, tudo em mim se valoriza, desde os meus cabelos aos meus olhos grandes e atraentes. As sacolas penduradas pelas pontas dos meus dedinhos me faz a mais linda e bela mulher dos corredores de um shopping. Todos te olham, te olham com desejo. O andar sofisticado e os cabelos em movimentos me deixam ainda mais atraente, junto, é claro, do som seduzente dos saltos em contato com o piso gelado. É uma experiência de realização, não só para mim, mas para o ego também.


Em casa, as dezenas de sacolas mexem com meu imaginário. Tudo aquilo espalhado sobre minha cama me hipnotiza. E nessa hora os flashes vem e vão. Eu realmente precisava de tudo aquilo? Onde eu estava com a cabeça quando comprei todas aquelas coisas? Como vou pagar? … Cautelosamente meus olhos vão se fechando e por fim eu acabo adormecendo em cima de todo o sonho postiço que durante alguns bons meses irá tirar meu sono, ou até que a tendência do dinheiro de plástico deixe de ser uma tendência para mim e passe a ser apenas o necessário. Só o necessário.


Lisa Taylor
A garota do diário

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